Um senhor de 60 anos, com aparência mais senil, com ensino fundamental completo, trabalhador da zona rural durante toda a vida, está indo a autoescola para reciclar a habilitação de motorista e, por isso, está refazendo os testes psicotécnicos, porém não conseguiu compreender como responder o teste de raciocínio lógico, nem mesmo com várias explicações da psicóloga. (Elaborado pela autora, 2024.) A partir do caso exposto acima, como o neuropsicólogo começaria a investigar este caso, criando uma hipótese diagnóstica assertiva?
Questão
Um senhor de 60 anos, com aparência mais senil, com ensino fundamental completo, trabalhador da zona rural durante toda a vida, está indo a autoescola para reciclar a habilitação de motorista e, por isso, está refazendo os testes psicotécnicos, porém não conseguiu compreender como responder o teste de raciocínio lógico, nem mesmo com várias explicações da psicóloga.
(Elaborado pela autora, 2024.)
A partir do caso exposto acima, como o neuropsicólogo começaria a investigar este caso, criando uma hipótese diagnóstica assertiva?
Alternativas
Uma hipótese pode ser o prejuízo nas funções cognitivas: atenção; memória; planejamento; percepção; compreensão; abstração; raciocínio; linguagem, dentre outras evocadas para resolução de problemas.
Uma hipótese é que talvez este idoso tenha um déficit orgânico cerebral e, por isso, as suas funções cognitivas não conseguem ser evocadas.
Uma hipótese que reduz a capacidade de resolução de problemas é a ansiedade do idoso, pois talvez nessa condição ele não consiga elaborar o teste, mas se estiver em outro momento, provavelmente conseguirá.
Uma hipótese é que o perfil do idoso não se encaixa para aquele tipo de teste, o ideal seria utilizar um teste que tenha o mesmo objetivo, de averiguar as mesmas funções, porém com outra estratégia.
Uma hipótese pode ser dificuldade na resolução de problemas lógicos, ou ainda na integração de informações variadas, que estaria acontecendo devido a algum dano na região intermediaria do cérebro, o lobo parietal.
Explicação
Para o neuropsicólogo iniciar a investigação de forma assertiva, o primeiro passo é formular uma hipótese que leve em conta o contexto de escolaridade, letramento e história ocupacional, antes de concluir que há um déficit neurológico.
No caso, trata-se de um homem de 60 anos, com ensino fundamental, trabalhador rural a vida toda e com “aparência mais senil”. Ele não conseguiu compreender um teste de raciocínio lógico mesmo após explicações, o que pode acontecer por vários motivos (linguagem do instrumento, exigência escolar, formato abstrato, baixa familiaridade com testes), sem necessariamente indicar, de início, uma lesão específica ou demência.
Assim, a hipótese inicial mais adequada é a de que o instrumento não foi compatível com o perfil do avaliado. Em neuropsicologia, isso significa suspeitar de um viés de mensuração (o teste pode exigir habilidades acadêmicas/abstratas ou estratégias de resolução típicas de pessoas com maior escolaridade), e portanto o caminho correto é:
- Reavaliar a adequação do teste (se a compreensão das instruções e do formato é compatível com escolaridade e repertório cultural);
- Aplicar instrumentos equivalentes (mesma função-alvo: raciocínio, solução de problemas, funções executivas), mas com outra estratégia de apresentação, linguagem mais simples, exemplos, tarefas menos dependentes de escolaridade;
- Só então, se o desempenho se mantiver baixo em diferentes tarefas e houver sinais adicionais, avançar para hipóteses como comprometimento cognitivo, causas orgânicas, ou fatores emocionais.
Por que as outras alternativas são menos assertivas como “primeira hipótese”:
- (1) é muito ampla e já sugere múltiplos prejuízos sem evidência;
- (2) pressupõe “déficit orgânico cerebral” de início, sem triagem de fatores contextuais/instrumentais;
- (3) ansiedade pode interferir, mas não é a hipótese inicial mais forte diante de incapacidade de compreender a tarefa mesmo com explicações (pode até coexistir, mas precisa ser investigada);
- (5) localiza em lobo parietal de forma precoce e específica, o que não é justificável apenas com esse dado.
Logo, a melhor alternativa é a que propõe começar pela adequação do instrumento ao perfil do idoso, ajustando a estratégia de avaliação para evitar falso-positivo de déficit cognitivo.