Leia o texto a seguir: "[...] Para 'complicar' um pouco os dados, considere-se um tipo especial de restritiva: 'O Ronaldo que o Corinthians contratou não é o Ronaldo que foi goleador na Copa de 2002'. As estruturas em destaque são orações restritivas. Como assim? (alguém poderia perguntar). Não se disse que a restritiva restringe? Como é possível se se trata de um só indivíduo? Considera-se apenas uma parte dele? [...] Este é um bom exemplo de efeitos de sentido que as estruturas linguísticas produzem e de posições discursivas 'polêmicas' [...]." Em suma: fazer análise sintática supõe interpretar os enunciados — e não aplicar receitas, ou dicas. O trecho pertence a um artigo escrito pelo linguista Sírio Possenti. Sua intenção é propor e discutir reflexões sobre as orações subordinadas adjetivas, para que sejam analisadas dentro de um contexto, e não apenas aplicando-se regras gramaticais. Feitas as observações, a direção argumentativa apresentada permite afirmar que:

Questão

Leia o texto a seguir:

"[...] Para 'complicar' um pouco os dados, considere-se um tipo especial de restritiva: 'O Ronaldo que o Corinthians contratou não é o Ronaldo que foi goleador na Copa de 2002'. As estruturas em destaque são orações restritivas. Como assim? (alguém poderia perguntar). Não se disse que a restritiva restringe? Como é possível se se trata de um só indivíduo? Considera-se apenas uma parte dele? [...] Este é um bom exemplo de efeitos de sentido que as estruturas linguísticas produzem e de posições discursivas 'polêmicas' [...]."

Em suma: fazer análise sintática supõe interpretar os enunciados — e não aplicar receitas, ou dicas.

O trecho pertence a um artigo escrito pelo linguista Sírio Possenti. Sua intenção é propor e discutir reflexões sobre as orações subordinadas adjetivas, para que sejam analisadas dentro de um contexto, e não apenas aplicando-se regras gramaticais. Feitas as observações, a direção argumentativa apresentada permite afirmar que:

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Trecho em destaque (citação central):

"O Ronaldo que o Corinthians contratou não é o Ronaldo que foi goleador na Copa de 2002"

Fonte indicada no enunciado: http://revistalingua.com.br/textos/41/artigo248552-1.asp (acesso em 10 maio 2015).

Alternativas

o autor propõe um exemplo que não tem sentido no registro padrão, visto que o emprego das vírgulas isolando as duas orações é obrigatório.

o efeito de sentido da frase restritiva é que há dois Ronaldos, levando em consideração o desempenho do indivíduo como futebolista em momentos distintos.

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o questionamento da individualidade é válido, visto que, semanticamente, é impossível restringir um único elemento de um conjunto unitário.

as orações adjetivas trazem informações adicionais que podem ser suprimidas; assim, seria incoerente dizer "O Ronaldo não é o Ronaldo".

a primeira oração adjetiva poderia ser substituída, com mudança de sentido, por "contratado pelo Corinthians" se a intenção fosse generalizar a característica vinculada.

Explicação

O texto de Sírio Possenti chama atenção para o fato de que a análise de orações adjetivas (especialmente as restritivas) não deve ser feita como mera “receita” de pontuação ou identificação mecânica, mas considerando os efeitos de sentido no enunciado.

Na frase-chave:

  • O Ronaldo que o Corinthians contratou
  • “não é o Ronaldo que foi goleador na Copa de 2002

as duas estruturas destacadas são orações subordinadas adjetivas restritivas. Em termos tradicionais, a restritiva “seleciona” um elemento dentro de um conjunto (por exemplo: “os alunos que estudaram”). A aparente “polêmica” aqui é: como restringir se “Ronaldo” parece ser um único indivíduo?

O que acontece é um efeito discursivo/semântico: o enunciado constrói dois recortes do mesmo referente, como se fossem “dois Ronaldos” em termos de identidade discursiva:

  1. o Ronaldo na fase em que foi contratado pelo Corinthians;
  2. o Ronaldo da fase de grande desempenho (goleador em 2002).

Assim, a restrição não está “dividindo” literalmente uma pessoa em duas, mas opondo dois perfis/figurações do mesmo indivíduo em tempos diferentes, produzindo a leitura de que “não se trata do mesmo Ronaldo” do ponto de vista esportivo.

Por isso, a alternativa correta é a que afirma que o efeito de sentido sugere “dois Ronaldos” considerando desempenhos em momentos distintos. As demais alternativas ou reduzem a questão à pontuação/registro padrão (o que o autor critica), ou tratam como impossibilidade semântica absoluta, ou confundem restritiva com explicativa (informação suprimível), ou propõem uma substituição que não atinge o ponto central do efeito de sentido discutido.

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