Farmacologia: Descreva a evolução do quadro clínico (fases) e os sinais e sintomas esperados na superdosagem de paracetamol; explique o mecanismo envolvido na hepatotoxicidade pelo paracetamol; e indique o tratamento apropriado para este paciente que ingeriu 48 comprimidos de 750 mg há 5 horas em tentativa de suicídio.
Descreva a evolução do quadro clínico (fases) e os sinais e sintomas esperados na superdosagem de paracetamol; explique o mecanismo envolvido na hepatotoxicidade pelo paracetamol; e indique o tratamento apropriado para este paciente que ingeriu 48 comprimidos de 750 mg há 5 horas em tentativa de suicídio.
1) Evolução do quadro clínico (fases) e sinais/sintomas na superdosagem de paracetamol
Fase I (0–24 h após a ingestão)
- Muitas vezes assintomática nas primeiras horas.
- Quando presentes: náuseas, vômitos, anorexia, sudorese, palidez, mal-estar, dor epigástrica.
- Exames podem estar ainda normais (AST/ALT podem começar a subir no fim da fase).
Fase II (24–72 h)
- Pode haver melhora dos sintomas gastrointestinais, mas ocorre piora laboratorial e clínica hepática.
- Dor em hipocôndrio direito, hepatomegalia/sensibilidade hepática.
- Aumento de AST/ALT (podem subir muito), aumento de bilirrubinas, elevação do INR/TP.
- Pode surgir oligúria/elevação de creatinina (lesão renal associada) e alterações metabólicas iniciais.
Fase III (72–96 h; pico de gravidade)
- Hepatite fulminante/necrose hepática: icterícia, vômitos persistentes, dor abdominal importante.
- Coagulopatia (INR elevado), hipoglicemia, acidose metabólica, encefalopatia hepática (confusão, sonolência, coma), sangramentos.
- Possíveis complicações: insuficiência renal aguda, pancreatite, arritmias, choque, edema cerebral.
- Maior risco de óbito.
Fase IV (4–14 dias, se sobreviver)
- Recuperação gradual clínica e laboratorial em casos não fatais (regeneração hepática).
- Em casos graves: evolução para necessidade de transplante hepático.
2) Mecanismo da hepatotoxicidade do paracetamol
- Em dose terapêutica, a maior parte do paracetamol é metabolizada por glicuronidação e sulfatação (vias “seguras”).
- Uma fração menor é oxidada pelo citocromo P450 (principalmente CYP2E1; também CYP1A2 e CYP3A4) gerando o metabólito reativo NAPQI (N-acetil-p-benzoquinona imina).
- Em condições normais, o NAPQI é detoxificado pela glutationa (GSH) e excretado.
- Na superdosagem:
- as vias de conjugação saturam;
- há produção excessiva de NAPQI;
- a glutationa hepática se esgota (classicamente quando cai para < ~30% do normal);
- o NAPQI passa a ligar-se covalentemente a proteínas mitocondriais e outras estruturas, gerando estresse oxidativo, disfunção mitocondrial e necrose centrolobular (zona 3) → insuficiência hepática aguda.
- Fatores que podem aumentar risco (não necessários para ocorrer): jejum/desnutrição, etilismo crônico (indução do CYP2E1), uso de indutores enzimáticos.
3) Conduta e tratamento para este paciente (48 comp. de 750 mg há 5 h)
Cálculo da dose ingerida
- 48 comprimidos × 750 mg = 36.000 mg (36 g).
- Em adulto, isso costuma ser muito acima do limiar de toxicidade (regra prática: ≥ 150 mg/kg em ingestão aguda já é potencialmente tóxico; 36 g é dose extremamente elevada).
Conduta imediata (já na chegada, sem esperar exames)
- Avaliação inicial (ABCDE), sinais vitais, glicemia capilar, acesso venoso, monitorização.
- Carvão ativado: como a ingestão foi há 5 horas, ainda é indicado em muitos cenários quando a ingestão é grande e recente (especialmente se apresentação até ~4 h, mas pode ser considerado além disso em superdosagens importantes ou se houver suspeita de esvaziamento gástrico lento/ingestão maciça). Dose usual: 1 g/kg (máx. 50 g), se via aérea protegida e sem contraindicações.
- Dosar paracetamol sérico em tempo adequado:
- Coletar a partir de 4 horas pós-ingestão (ele já está com 5 h, então colher agora).
- Interpretar pelo nomograma de Rumack–Matthew (ingestão aguda, tempo conhecido, formulação de liberação imediata).
Antídoto (tratamento específico): N-acetilcisteína (NAC)
- Indicar NAC imediatamente neste caso, porque:
- ingestão maciça (36 g);
- tempo 5 horas (benefício máximo se iniciada até 8 h);
- risco muito alto e não se deve atrasar a terapia aguardando nível sérico se houver qualquer possibilidade de atraso.
- Mecanismos da NAC: repõe glutationa, aumenta detoxificação do NAPQI e tem efeitos antioxidantes.
Esquemas usuais de NAC (escolher conforme protocolo local; ambos são aceitos)
- IV (regime clássico 21 h):
- 150 mg/kg em 1 h,
- depois 50 mg/kg em 4 h,
- depois 100 mg/kg em 16 h.
- Total: 300 mg/kg em 21 h.
- VO (72 h):
- dose de ataque 140 mg/kg,
- depois 70 mg/kg a cada 4 h por 17 doses.
Exames e monitorização
- Basais e seriados: AST/ALT, bilirrubinas, INR/TP, glicose, ureia/creatinina, eletrólitos, gasometria/lactato (se grave), hemograma.
- Repetir conforme evolução; observar tendência de INR, AST/ALT e estado mental.
Quando manter/estender NAC além do esquema padrão
- Se ao final do protocolo ainda houver:
- paracetamol detectável,
- AST/ALT em ascensão,
- INR elevado ou sinais de insuficiência hepática,
- acidose/lactato elevado,
- encefalopatia. → manter NAC (infusão contínua conforme protocolo) até melhora clínica/laboratorial e níveis indetectáveis.
Suporte e encaminhamentos essenciais
- Tratar hipoglicemia, distúrbios hidroeletrolíticos e acidose.
- Avaliar critérios de gravidade e necessidade de UTI.
- Considerar centro de transplante hepático precocemente se sinais de insuficiência hepática aguda (p.ex., critérios prognósticos como os do King’s College, dependendo do protocolo local).
- Como foi tentativa de suicídio: avaliação psiquiátrica após estabilização.
Resumo aplicado ao caso Paciente com ingestão aguda de 36 g há 5 horas → alto risco. Conduta: carvão ativado (se elegível), coletar paracetamol sérico imediatamente (já >4 h), iniciar NAC sem demora, monitorar função hepática/renal e coagulopatia, e manter/estender NAC conforme resposta.
Alternativa correta: (sem alternativas).
O enunciado pede uma resposta discursiva em três partes: (i) fases clínicas da intoxicação por paracetamol, (ii) mecanismo da hepatotoxicidade e (iii) tratamento indicado para um caso específico (ingestão maciça há 5 h).
(i) Fases clínicas: A intoxicação por paracetamol costuma evoluir em 4 fases temporais. Nas primeiras 24 h (fase I) predominam ausência de sintomas ou sintomas inespecíficos gastrointestinais; entre 24–72 h (fase II) pode ocorrer melhora clínica inicial com início de dor em hipocôndrio direito e piora laboratorial (AST/ALT e INR); entre 72–96 h (fase III) ocorre o pico de necrose hepática e risco de insuficiência hepática aguda (icterícia, coagulopatia, hipoglicemia, acidose e encefalopatia), com possíveis falências associadas (renal etc.); após isso (fase IV) há recuperação gradual se houver sobrevida.
(ii) Mecanismo: Em superdosagem, saturam-se as vias de glicuronidação/sulfatação e aumenta a formação do metabólito reativo NAPQI via CYP450 (especialmente CYP2E1). A glutationa hepática se esgota e o NAPQI se liga a proteínas/mitocôndrias, gerando estresse oxidativo e necrose hepatocelular (predomínio centrolobular).
(iii) Tratamento do caso: O paciente ingeriu há 5 h, dose muito acima do limiar de toxicidade. A conduta correta é: estabilização clínica, considerar carvão ativado (ingestão importante e recente), dosar paracetamol sérico (já que está >4 h) e iniciar imediatamente N-acetilcisteína, pois o benefício é maior quanto mais cedo, especialmente antes de 8 h, e a ingestão foi maciça. Monitorar função hepática/renal e coagulação e estender NAC se persistirem níveis detectáveis ou lesão hepática em progressão. Após estabilização, encaminhar para avaliação psiquiátrica e considerar centro de transplante em sinais de insuficiência hepática aguda.
Alternativa correta: (sem alternativas).