Mocidade e Morte Oh! Eu quero viver, beber perfumes Na flor silvestre, que embalsama os ares; Ver minh’alma adejar pelo infinito, Qual branca vela n’amplidão dos mares. No seio da mulher há tanto aroma... Nos seus beijos de fogo há tanta vida... Árabe errante, vou dormir à tarde À sombra fresca da palmeira erguida. Mas uma vez responde-me sombria: Terás o sono sob a lájea fria. [...] Eu sinto em mim o borbulhar do gênio. Vejo além um futuro radiante: Avante! – brada-me o talento n’alma Após – um nome do universo n’alma, Um nome escrito no Panteon da história. E a mesma voz repete funerária: – Teu Panteon – a pedra mortuária! ALVES, Castro. Mocidade e Morte. Academia Brasileira de Letras. Disponível em: https://academia.org.br. Acesso em: 5 jan. 2026. Castro Alves Eu queria viver, beber perfumes Na flor silvestre que embalsama o éter; Ver su’alma adejar pelo infinito Qual branca vela na amplidão dos mares; Sentia a voraz febre do talento, Entrevia um esplêndido futuro Entre as benções do povo; tinha n’alma De amor ardente um universo inteiro Mas uma voz lhe respondeu sombria: – Terás o sono sobre a lajem tosca! – [...] Mas… não morreste, não, condor brasílio Que nunca morrerão teus puros versos! Não, não morreste, que não morrem Goethes, Não morrem Dantes, Lamartines, Tassos, Garretts, Camões, Gonçalves Dias, Miltons, Azevedos e Abreus. Teus belos cantos Cortarão as caligens das idades Como de Homero os divinais poemas! AMÁLIA, Narcisa. Castro Alves. In: Nebulosas. São Paulo: Via Leitura, 2024. a) Aponte dois elementos que evidenciam a intertextualidade entre os poemas e explique pontos em que autores divergem quanto à perspectiva da finitude e da memória. b) Castro Alves é reconhecido como um dos principais expoente do romantismo no Brasil, transitando entre a lírica ultrarromântica e a poesia de cunho social, também chamada de condoreirismo. Considerando que os poemas acima são representativos das obras desses autores, explique como a obra poética de Narcisa Amália dialoga com essas duas vertentes da poética de Castro Alves.

Questão

Mocidade e Morte

Oh! Eu quero viver, beber perfumes

Na flor silvestre, que embalsama os ares;

Ver minh’alma adejar pelo infinito,

Qual branca vela n’amplidão dos mares.

No seio da mulher há tanto aroma...

Nos seus beijos de fogo há tanta vida...

Árabe errante, vou dormir à tarde

À sombra fresca da palmeira erguida.

Mas uma vez responde-me sombria:

Terás o sono sob a lájea fria.

[...]

Eu sinto em mim o borbulhar do gênio.

Vejo além um futuro radiante:

Avante! – brada-me o talento n’alma

Após – um nome do universo n’alma,

Um nome escrito no Panteon da história.

E a mesma voz repete funerária: –

Teu Panteon – a pedra mortuária!

ALVES, Castro. Mocidade e Morte. Academia Brasileira de Letras. Disponível em: https://academia.org.br. Acesso em: 5 jan. 2026.

Castro Alves

Eu queria viver, beber perfumes

Na flor silvestre que embalsama o éter;

Ver su’alma adejar pelo infinito

Qual branca vela na amplidão dos mares;

Sentia a voraz febre do talento,

Entrevia um esplêndido futuro

Entre as benções do povo; tinha n’alma

De amor ardente um universo inteiro

Mas uma voz lhe respondeu sombria:

– Terás o sono sobre a lajem tosca! –

[...]

Mas… não morreste, não, condor brasílio

Que nunca morrerão teus puros versos!

Não, não morreste, que não morrem Goethes,

Não morrem Dantes, Lamartines, Tassos,

Garretts, Camões, Gonçalves Dias, Miltons,

Azevedos e Abreus. Teus belos cantos

Cortarão as caligens das idades

Como de Homero os divinais poemas!

AMÁLIA, Narcisa. Castro Alves. In: Nebulosas. São Paulo: Via Leitura, 2024.

a) Aponte dois elementos que evidenciam a intertextualidade entre os poemas e explique pontos em que autores divergem quanto à perspectiva da finitude e da memória.

b) Castro Alves é reconhecido como um dos principais expoente do romantismo no Brasil, transitando entre a lírica ultrarromântica e a poesia de cunho social, também chamada de condoreirismo. Considerando que os poemas acima são representativos das obras desses autores, explique como a obra poética de Narcisa Amália dialoga com essas duas vertentes da poética de Castro Alves.

Resposta

86%

a)

Elementos de intertextualidade (2 exemplos):

  1. Reaproveitamento de versos/imagens centrais: Narcisa Amália retoma quase literalmente o início do poema de Castro Alves (“Eu queria/quero viver, beber perfumes…”, “Qual branca vela na amplidão dos mares”), conservando o núcleo imagético do desejo de vida intensa e da expansão para o infinito. Isso caracteriza intertextualidade por paráfrase/citação recriada, pois o texto posterior se constrói dialogando diretamente com a tessitura verbal do anterior.
  2. Repetição da estrutura de contraste ‘impulso vital’ × ‘resposta sombria’ (morte): em ambos aparece uma voz que interrompe o entusiasmo do eu poético e impõe a sentença fúnebre (“Mas uma vez responde-me sombria: / Terás o sono sob a lájea fria.”; “Mas uma voz lhe respondeu sombria: / – Terás o sono sobre a lajem tosca! –”). O mecanismo formal é semelhante: primeiro a exaltação (vida, talento, futuro), depois o refrão/repique funerário que lembra a finitude.

Divergências de perspectiva (finitude e memória):

  • Finitude (morte): em Mocidade e Morte, a morte aparece como destino inescapável e nivelador, capaz de reduzir até a glória (“Teu Panteon – a pedra mortuária!”). O poema enfatiza a tensão trágica: quanto mais o sujeito se sente chamado ao futuro (“Avante!”), mais a voz “funerária” recoloca a realidade da sepultura.
  • Memória (sobrevivência pela obra): no poema de Narcisa Amália, embora a morte física seja reconhecida (a “lajem”), ela é relativizada/negada do ponto de vista simbólico: “Mas… não morreste, não… / Que nunca morrerão teus puros versos!”. Aqui, a memória literária funciona como antídoto contra a finitude: o corpo morre, mas o poeta permanece no tempo pela permanência dos versos e pelo ingresso numa tradição (“Goethes, Dantes, Camões…”). Assim, enquanto Castro Alves dramatiza a derrota do ideal diante da morte, Narcisa reinterpreta a morte como incapaz de apagar a grandeza do poeta.

b)

Como Narcisa dialoga com as duas vertentes de Castro Alves (ultrarromantismo e condoreirismo):

  1. Diálogo com a lírica ultrarromântica (subjetivismo, erotização da vida, tensão vida/morte):

    • Nos trechos retomados, predominam imagens de intensidade sensorial e emocional (“beber perfumes”, “aroma”, “beijos de fogo”), idealização e expansão do “eu” (“alma… pelo infinito”), além do motivo ultrarromântico clássico: a obsessão com a morte que interrompe o sonho. Narcisa recupera exatamente esse clima, reforçando a dimensão íntima e existencial (o jovem poeta desejoso de vida confrontado com a sentença fúnebre).
  2. Diálogo com o condoreirismo (grandiloquência, projeção histórica, exaltação do poeta e do povo):

    • Narcisa também conversa com o Castro Alves “condoreiro” ao monumentalizar o poeta: chama-o “condor brasílio” e projeta sua voz para além do tempo, como figura elevada e pública. A enumeração de grandes nomes (Goethe, Dante, Camões etc.) e a afirmação de que os cantos “cortarão as caligens das idades” conferem tom oratória/épico, típico do condoreirismo, em que a poesia pretende intervir na história e ocupar um lugar alto (como o condor, ave das alturas).
    • Além disso, quando menciona o “futuro” e as “bênçãos do povo” (na caracterização do talento e do destino de consagração), Narcisa aciona a dimensão coletiva da fama do poeta — não é só um drama pessoal; é um patrimônio cultural, algo reconhecido por uma comunidade.

Em síntese, Narcisa Amália parte do mesmo núcleo ultrarromântico (ânsia de viver + sombra da morte), mas desloca a conclusão para um gesto condoreiro de exaltação: a morte não encerra o poeta, porque a palavra poética o inscreve numa memória histórica e literária duradoura.

Alternativa correta: (a).

Explicação

A questão é discursiva e pede duas respostas (itens a e b), não uma alternativa de múltipla escolha. Assim, a solução foi organizada exatamente conforme o enunciado: (a) identificação de marcas intertextuais + divergências de visão sobre finitude/memória; (b) explicação do diálogo de Narcisa com as duas vertentes associadas a Castro Alves (ultrarromantismo e condoreirismo).

Passo a passo do raciocínio (a):

  1. Busquei no segundo poema trechos que reproduzem o primeiro: há repetição quase literal do início e de imagens (“beber perfumes”, “branca vela”, “amplidão dos mares”). Isso configura intertextualidade direta (paráfrase/citação).
  2. Em seguida, comparei o “movimento” de cada poema: ambos constroem entusiasmo vital e o quebram com uma “voz sombria” que anuncia a laje/túmulo. Essa estrutura paralela é um segundo elemento intertextual.
  3. Para a divergência, observei a conclusão ideológica de cada texto: Castro Alves enfatiza a morte como destino que reduz até a ideia de panteão; Narcisa afirma a sobrevivência do poeta pela obra e pela tradição literária.

Passo a passo do raciocínio (b):

  1. Identifiquei marcas ultrarromânticas nos excertos: subjetividade intensa, imagens sensoriais/eróticas, tema vida/morte.
  2. Identifiquei marcas condoreiras no poema de Narcisa: tom grandioso, metáfora do “condor”, projeção histórica, enumeração de cânone, consagração pública (“povo”), permanência da voz poética.
  3. Concluí que o texto de Narcisa funciona como leitura-homenagem: reaproveita o drama íntimo (ultrarromântico) e o transforma em vitória simbólica e monumentalização (condoreira).

Alternativa correta: (a).

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