Enzo, masculino, 6 anos, é levado ao hospital municipal de sua pequena cidade pela avó. Ela relata que “o Enzo tomou meu remédio de dormir” (sic). Mostra então um frasco de Clonazepam 2,5 mg/mL com cerca de 90% de seu volume preservado e diz desconhecer a quantidade que a criança possa ter ingerido. Ao exame físico, Enzo apresenta diminuição do tônus postural, letargia e fala arrastada. Com base no caso apresentado, qual é a melhor alternativa?
Questão
Enzo, masculino, 6 anos, é levado ao hospital municipal de sua pequena cidade pela avó. Ela relata que “o Enzo tomou meu remédio de dormir” (sic). Mostra então um frasco de Clonazepam 2,5 mg/mL com cerca de 90% de seu volume preservado e diz desconhecer a quantidade que a criança possa ter ingerido. Ao exame físico, Enzo apresenta diminuição do tônus postural, letargia e fala arrastada. Com base no caso apresentado, qual é a melhor alternativa?
Alternativas
A) Trata-se de uma intoxicação grave que necessita de abordagem em unidade de terapia intensiva (UTI) pediátrica.
B) Embora não possua antídoto específico, o Clonazepam tem ação curta (menos de 40 minutos) e uma conduta aceitável é soroterapia com cristaloide e observação por 6 horas.
C) Uma conduta possível é monitoramento, infusão endovenosa de Flumazenil e observação hospitalar por 24 a 48 horas.
D) Por se tratar de intoxicação por benzodiazepínico, a conduta de escolha é realizar monitoramento cardíaco, iniciar Atropina em dose baixa e progredir a cada 2 horas até dose plena de acordo com o peso. Observar por 48 horas antes da alta hospitalar.
E) Intoxicação por Clonazepam geralmente evolui com depressão respiratória e parada cardiorrespiratória (PCR). Nesse caso, o médico deve realizar intubação orotraqueal (IOT) protetora o quanto antes e avaliar a necessidade de iniciar droga vasoativa (DVA). Deve também, assim que possível, solicitar transferência para hospital de referência com unidade de suporte avançado (USA) do SAMU.
Explicação
- Identificação do quadro clínico
- Clonazepam é um benzodiazepínico. Em intoxicação isolada por benzodiazepínicos, o quadro típico é depressão do SNC: sonolência/letargia, fala arrastada, ataxia, hipotonia e diminuição do tônus postural, geralmente com estabilidade hemodinâmica.
- No caso, Enzo (6 anos) apresenta letargia, fala arrastada e diminuição do tônus postural, compatível com intoxicação por benzodiazepínico.
- Gravidade provável
- Intoxicação isolada por benzodiazepínico, na maioria das vezes, não evolui com depressão respiratória grave ou PCR; isso é mais comum quando há coingestão de outros depressores (ex.: álcool, opioides, barbitúricos) ou em pacientes com comorbidades.
- Aqui não há sinais descritos de insuficiência respiratória (sem hipoventilação, cianose, rebaixamento profundo com incapacidade de proteger via aérea), nem instabilidade cardiovascular. Portanto, não é automaticamente um caso “grave de UTI” nem indicação imediata de IOT.
- Conduta padrão
- A conduta principal é suporte e monitorização: via aérea e ventilação (avaliar e garantir), sinais vitais, oximetria, glicemia capilar, observação clínica.
- Flumazenil é antagonista de benzodiazepínicos e pode ser considerado em situações selecionadas (especialmente em intoxicação isolada por benzodiazepínico com depressão importante do SNC), desde que ponderados riscos (principalmente convulsões, sobretudo se houver coingestão de pró-convulsivantes ou uso crônico de benzodiazepínicos). Em criança com ingestão acidental e quadro compatível, pode ser uma opção terapêutica sob monitorização.
- Clonazepam tem meia-vida longa (não é “ação curta de 40 minutos”), então a observação deve ser prolongada quando sintomático, tipicamente 24–48 h, conforme evolução.
- Análise das alternativas A) Incorreta: não há dados de gravidade extrema/instabilidade que indiquem UTI obrigatória. B) Incorreta: não é verdade que o clonazepam tenha ação curta (<40 min) e 6 horas podem ser insuficientes em fármaco de meia-vida longa, ainda mais em criança sintomática. C) Correta: propõe monitoramento, possibilidade de flumazenil (em cenário selecionado) e observação hospitalar por 24–48 h, coerente com benzodiazepínico de duração longa e criança sintomática. D) Incorreta: atropina não é tratamento de escolha para intoxicação por benzodiazepínico. E) Incorreta: depressão respiratória grave/PCR não é a evolução “geral” da intoxicação isolada por clonazepam; IOT e DVA precoces sem sinais de falência respiratória/hemodinâmica não são condutas padrão.
Alternativa correta: (C).