Maria Peres se confessou dia desses Maria Peres se māfestou (confessou) noutro dia, ca por pecador (pois pecadora) se sentiu, e log'a Nostro Senhor pometeu, pelo mal em que andou, que tivesse' um clérig' a seu poder, (um clérigo em seu poder) polos pecados que lhi faz fazer o demo, com que x'ela sempr'andou. (O demónio, com quem sempre andou) Māfestou-se, ca (porque) diz que s'achou pecador muit'(muito pecadora) porém, rogador foi log'a Deus, ca teve por melhor de guardar a El ca o que a guardou [...] E mentr'e (enquanto) viva diz que quer teer um clérigo, com que se defender possa do demo, que sempre guardou ... E pois (depois) que bem seus pecados catou de sa mor' ouv (teve) ela gram pavor e d'esmolar ouv' ela gram sabor. (teve grande prazer em esmolar) E logo enton um clérico filhou (agarrou) e deu-lhe a cama em que sol jazer. (sozinha dormia) E diz que o terá mentre (terá enquanto) viver e esta fará; todo por Deus filhou. (E isso fará, pois tudo aceitou por Deus). ... E pois que s'este preito (pacto) começou, antr'eles ambos ouve grand'amor. /[...] A cantiga de Fernão Velho é uma Cantiga de Maldizer. No texto, a sátira recai sobre
Questão
Maria Peres se confessou dia desses
Maria Peres se māfestou (confessou) noutro dia, ca por pecador (pois pecadora) se sentiu, e log'a Nostro Senhor pometeu, pelo mal em que andou, que tivesse' um clérig' a seu poder, (um clérigo em seu poder) polos pecados que lhi faz fazer o demo, com que x'ela sempr'andou. (O demónio, com quem sempre andou)
Māfestou-se, ca (porque) diz que s'achou pecador muit'(muito pecadora) porém, rogador foi log'a Deus, ca teve por melhor de guardar a El ca o que a guardou [...] E mentr'e (enquanto) viva diz que quer teer um clérigo, com que se defender possa do demo, que sempre guardou ... E pois (depois) que bem seus pecados catou de sa mor' ouv (teve) ela gram pavor e d'esmolar ouv' ela gram sabor. (teve grande prazer em esmolar) E logo enton um clérico filhou (agarrou) e deu-lhe a cama em que sol jazer. (sozinha dormia) E diz que o terá mentre (terá enquanto) viver e esta fará; todo por Deus filhou. (E isso fará, pois tudo aceitou por Deus). ... E pois que s'este preito (pacto) começou, antr'eles ambos ouve grand'amor. /[...]
A cantiga de Fernão Velho é uma Cantiga de Maldizer. No texto, a sátira recai sobre
Alternativas
A) a santidade e a pureza de Maria Peres após a confissão.
B) a corrupção moral e a hipocrisia de figuras religiosas (o clérigo).
C) a falta de camas confortáveis nas hospedarias de Portugal.
D) a eficiência do sistema jurídico medieval em punir o demônio.
E) o amor romântico e platônico entre uma pecadora e um santo.
Explicação
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A cantiga é de maldizer, isto é, faz sátira direta, com linguagem mais explícita e intenção de ridicularizar alguém/situação.
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No texto, Maria Peres diz que, para se defender do “demo”, promete a Deus ter “um clérigo a seu poder”. A expressão é ambígua e maliciosa: em vez de indicar proteção espiritual, sugere que ela quer manter um clérigo “à disposição”.
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A sequência reforça a crítica: logo após “confessar” e dizer que quer se afastar do pecado, ela “logo enton um clérico filhou” e “deu-lhe a cama” (ou seja, leva o clérigo para a intimidade). Isso cria o efeito satírico de que a “mudança de vida” é só aparência, e de que o próprio clérigo participa de conduta imprópria.
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O verso final citado — “antr’eles ambos ouve grand’amor” — completa a ironia: a relação entre eles não é uma solução religiosa contra o demônio, mas um envolvimento amoroso/carnal, expondo a hipocrisia e a corrupção moral atribuída ao clérigo (figura religiosa que deveria ser exemplo de virtude).
Assim, a sátira mira especialmente a figura religiosa, ridicularizando o contraste entre o discurso de devoção e a prática pecaminosa.
Alternativa correta: (B).