A TV sempre ligada. Estamos sentados na sala, ele na cadeira de rodas, eu no sofá, assistindo novela. Lá fora, Copacabana vai baixando a noite. A cidade é como os velhos, não tem a sorte de morrer jovem. Vai crescendo, inchando, criando becos, carocós cancerígenos, avenidas, vielas, churrascarias. Uma hora, até os moradores mais antigos se perdem nela, como o Sr. Mendes se perde em mim. Ele me olha e diz que sou mais doce que açúcar. Há anos ele só pode tomar refrigerante diet e café com adoçante. Não respondo. Cabelo a barba e fico pensando no lugar. A TV sempre ligada. Os vizinhos reclamam do barulho. Os estrangeiros não lembram, mas tem tanto sangue coagulado no nosso açúcar, tanto escravo que perdeu o braço nas moendas, tanto suor frio no nosso caldo de cana. Não sei se o Dr. Mendes se importa. HERINGER, V. Lígia. E-galáxia, 2018. Para auxiliar a composição de seu texto e revelar os pensamentos de seu personagem, o autor permeia as descrições do narrador do conto com devaneios que expressam um(a):

Questão

A TV sempre ligada. Estamos sentados na sala, ele na cadeira de rodas, eu no sofá, assistindo novela. Lá fora, Copacabana vai baixando a noite. A cidade é como os velhos, não tem a sorte de morrer jovem. Vai crescendo, inchando, criando becos, carocós cancerígenos, avenidas, vielas, churrascarias. Uma hora, até os moradores mais antigos se perdem nela, como o Sr. Mendes se perde em mim. Ele me olha e diz que sou mais doce que açúcar. Há anos ele só pode tomar refrigerante diet e café com adoçante. Não respondo. Cabelo a barba e fico pensando no lugar. A TV sempre ligada. Os vizinhos reclamam do barulho. Os estrangeiros não lembram, mas tem tanto sangue coagulado no nosso açúcar, tanto escravo que perdeu o braço nas moendas, tanto suor frio no nosso caldo de cana. Não sei se o Dr. Mendes se importa.

HERINGER, V. Lígia. E-galáxia, 2018.

Para auxiliar a composição de seu texto e revelar os pensamentos de seu personagem, o autor permeia as descrições do narrador do conto com devaneios que expressam um(a):

Alternativas

A) desejo de criação de uma realidade utópica.

B) mistura entre ilusão e falta de conhecimento.

C) indicação de intimidade entre os personagens.

D) desenvolvimento de rivalidade entre personagens.

E) reflexão sobre as cidades e a economia brasileiras.

92%

Explicação

  1. O enunciado pede identificar o sentido dos devaneios (digressões/reflexões) que o narrador intercala à cena cotidiana (TV ligada, novela, Copacabana anoitecendo).

  2. O texto começa com uma descrição íntima e doméstica, mas o narrador “viaja” para uma reflexão mais ampla:

  • sobre a cidade: “A cidade é como os velhos... Vai crescendo, inchando, criando becos...”. Aqui há um devaneio comparativo e crítico do crescimento urbano.
  • sobre a história econômica/social ligada ao açúcar: “tanto sangue coagulado no nosso açúcar... tanto escravo que perdeu o braço nas moendas...”. Isso remete à economia canavieira e à escravidão, isto é, uma reflexão histórica e econômica do Brasil.
  1. Esses trechos não constroem uma utopia (A), nem indicam falta de conhecimento (B), nem têm foco principal em intimidade (C) ou rivalidade (D). O núcleo das digressões é a crítica/reflexão sobre urbanização e formação econômica (açúcar/escravidão).

Alternativa correta: (E).

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