Encontrei uma preta que estava a chorar, pedi-lhe uma lágrima para a analisar. Recolhi a lágrima com todo o cuidado num tubo de ensaio bem esterilizado. Olhei-a de um lado, do outro e de frente: tinha um ar de gota muito transparente. Mandei vir os ácidos, as bases e os sais, as drogas usadas em casos semelhantes. Ensaiei a frio, experimentei ao lume, de todas as vezes deu-me o que é costume: Nem sinais de negro, nem vestígios de ódio. Água (quase tudo) e cloreto de sódio. Os versos anteriores articulam as linguagens literária e científica com questões de ordem ética e política. Considerando o contexto de produção e recepção de “Lágrima de preta” (anos 1960 e 1970, em Portugal), o propósito artístico desse poema é

Questão

Encontrei uma preta que estava a chorar, pedi-lhe uma lágrima para a analisar.

Recolhi a lágrima com todo o cuidado num tubo de ensaio bem esterilizado.

Olhei-a de um lado, do outro e de frente: tinha um ar de gota muito transparente.

Mandei vir os ácidos, as bases e os sais, as drogas usadas em casos semelhantes.

Ensaiei a frio, experimentei ao lume, de todas as vezes deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro, nem vestígios de ódio. Água (quase tudo) e cloreto de sódio.

Os versos anteriores articulam as linguagens literária e científica com questões de ordem ética e política. Considerando o contexto de produção e recepção de “Lágrima de preta” (anos 1960 e 1970, em Portugal), o propósito artístico desse poema é

Alternativas

A) inadequado quanto à análise social, ao refutar que haja racismo e preconceito na sociedade, é incorreto no aspecto científico, ao descrever as propriedades químicas de uma lágrima.

B) inadequado quanto à análise social, ao refutar a existência de racismo e preconceito na sociedade, mas correto no aspecto científico, ao descrever as propriedades químicas de uma lágrima.

C) pertinente quanto à análise social, ao registrar o racismo e o preconceito na sociedade, e correto no aspecto científico, ao descrever as propriedades químicas de uma lágrima.

92%

D) pertinente quanto à análise social, ao registrar o preconceito e o racismo na sociedade, mas incorreto no aspecto científico, ao descrever as propriedades químicas de uma lágrima.

Explicação

O poema “Lágrima de preta”, de António Gedeão (pseudônimo de Rómulo de Carvalho), foi muito lido nas décadas de 1960/1970 em Portugal, período marcado por tensões políticas e pela permanência do colonialismo português (e, portanto, por relações racializadas e hierarquizadas).

  1. Articulação entre linguagem científica e crítica social
  • O eu lírico adota um procedimento de laboratório (“tubo de ensaio”, “esterilizado”, “ácidos, bases e sais”, “ensaiei a frio”, “ao lume”), como se fosse realizar uma verificação objetiva.
  • O resultado químico é o “de costume”: água (quase tudo) e cloreto de sódio. Em termos científicos, isso é compatível com a composição básica de uma lágrima (majoritariamente água e sais dissolvidos, entre eles o NaCl).
  1. Propósito ético-político (denúncia do racismo)
  • A conclusão “Nem sinais de negro, / nem vestígios de ódio” não significa que não exista racismo; ao contrário, funciona por ironia e contraste: a ciência mostra que a lágrima é quimicamente igual à de qualquer pessoa, enquanto a sociedade insiste em diferenciar e inferiorizar o sujeito negro.
  • Assim, o poema registra e denuncia o preconceito: evidencia a contradição entre a igualdade humana (simbolizada pela lágrima comum) e a discriminação social (que é construída historicamente e politicamente, não “natural”).

Portanto, o texto é pertinente na análise social (porque critica o racismo) e correto no aspecto científico (porque descreve adequadamente a composição geral de uma lágrima).

Alternativa correta: (C).

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