Anestesiologia: Crie um protocolo institucional de manejo da hipotensão intraoperatória em pacientes com suspeita de hipovolemia, considerando a realidade de centros com recursos limitados.
Crie um protocolo institucional de manejo da hipotensão intraoperatória em pacientes com suspeita de hipovolemia, considerando a realidade de centros com recursos limitados.
Protocolo institucional – Manejo da hipotensão intraoperatória com suspeita de hipovolemia (centros com recursos limitados)
1) Objetivo
Padronizar a identificação e o tratamento da hipotensão intraoperatória quando a causa provável é hipovolemia, com foco em medidas rápidas, seguras e factíveis em ambientes com recursos limitados.
2) Definições operacionais (critérios de acionamento)
Considerar hipotensão intraoperatória se ocorrer qualquer um:
- PAM < 65 mmHg por > 1–3 min, ou
- PAS < 90 mmHg, ou
- Queda ≥ 20–30% da PA basal.
Suspeitar hipovolemia se houver um ou mais:
- Sangramento ativo/estimado relevante, campo cirúrgico “seco” antes e agora “molhado”, aspirador com aumento, compressas encharcadas.
- Taquicardia, extremidades frias, enchimento capilar lento, pele pálida.
- Redução de diurese (quando monitorada) / bexiga vazia.
- Ventilação com pressão positiva alta, anestesia profunda com vasodilatação (diagnóstico diferencial importante, mas pode coexistir).
3) Princípios do protocolo
- Confirmar a medida e corrigir causas simples (manguito, transdutor, posição do braço).
- Tratar primeiro o que mata mais rápido: oxigenação/ventilação, sangramento e perfusão.
- Bolus pequenos, reavaliação frequente (evitar “empilhar” fluidos sem resposta).
- Vasopressor não substitui volume, mas pode ser ponte enquanto se repõe volume e controla sangramento.
4) Algoritmo prático (passo a passo)
PASSO 0 – Acionar “Time-out de instabilidade” (0–1 min)
- Anunciar: “Hipotensão – seguir protocolo”.
- Solicitar ajuda: anestesia adicional se disponível, instrumentador, enfermagem.
- Checar rapidamente: PA, FC, SpO₂, EtCO₂ (se houver), profundidade anestésica, perdas/sangramento.
PASSO 1 – Medidas imediatas universais (primeiros 1–3 min)
- Oxigênio 100% e checar ventilação.
- Reduzir anestésico (volatile/propofol) se clinicamente aceitável; tratar dor/estímulo com cautela.
- Posicionamento: elevar membros inferiores / Trendelenburg leve (se não contraindicado).
- Acesso venoso: garantir pelo menos 1 acesso calibroso (14–16G se possível). Se acesso difícil, considerar 2 periféricos médios (18G) e infusão rápida.
- Aquecimento (mantas, fluidos aquecidos quando possível) para reduzir coagulopatia.
PASSO 2 – Avaliar se o padrão é de hipovolemia vs vasoplegia/cardiogênico
Sugere hipovolemia: taquicardia, pele fria, pulso fino, EtCO₂ em queda, sangramento evidente. Sugere vasoplegia/anestesia profunda: pele quente, pulso amplo, pouca resposta a fluidos, anestesia recente/alta, bloqueio neuroaxial. Sugere cardiogênico: crepitações, dificuldade ventilatória, ECG com isquemia/arrítmias, história cardíaca importante.
Se dúvida, tratar como misto: bolus de cristalóide + vasopressor de ponte, reavaliando.
5) Tratamento direcionado para suspeita de hipovolemia
5.1. Controle de causa
- Comunicar cirurgião: “suspeita de hipovolemia/hemorragia – localizar e controlar sangramento”.
- Compressão, hemostasia, tamponamento, ligaduras, cautério.
- Considerar redução de pneumoperitônio (laparoscopia) se contribuindo.
5.2. Reposição volêmica inicial (cristaloide)
- Cristaloide balanceado (preferível) ou SF 0,9%.
- Bolus de 250–500 mL em 5–10 min (adulto) e reavaliar.
- Repetir até 1–2 L conforme resposta e contexto.
Reavaliação após cada bolus (alvo de resposta):
- PAM ≥ 65 mmHg (ou alvo individual), melhora do pulso/perfusão, redução da taquicardia, melhora de EtCO₂.
- Se não responde após 500–1000 mL e sangramento não justifica, reconsiderar diagnóstico (vasoplegia/cardiogênico) e iniciar/ajustar vasopressor.
5.3. Vasopressor como ponte (quando PAM muito baixa ou resposta lenta)
Indicações típicas:
- PAM < 55–60 mmHg persistente,
- sinais de hipoperfusão (alteração de consciência em anestesia leve, EtCO₂ caindo, pele muito fria),
- tempo até controle do sangramento/infusão de volume.
Opções factíveis (escolher conforme disponibilidade):
- Efedrina 5–10 mg IV (útil se também houver bradicardia e anestesia profunda; pode falhar em hipovolemia grave).
- Fenilefrina 50–100 mcg IV em bolus (melhor para vasoplegia; cuidado se FC baixa).
- Norepinefrina (preferível quando disponível): iniciar 0,02–0,1 mcg/kg/min e titular para PAM alvo.
- Em centros sem bomba, evitar infusão improvisada se não houver monitorização; preferir bolus repetidos conforme protocolo local e segurança.
Regra prática: vasopressor + volume + controle do sangramento. Se o paciente “só fica de pé” com vasopressor e continua taquicárdico/frio, volume e hemostasia ainda insuficientes.
6) Manejo quando há suspeita de hemorragia significativa
6.1. Estimativa e classificação rápida
- Estimar perdas por aspirado + compressas + campo.
- Considerar hemorragia significativa se:
- sangramento ativo + instabilidade, ou
- necessidade repetida de vasopressor/bolus, ou
- queda progressiva de EtCO₂/perfusão.
6.2. Reanimação hemostática (adaptada a recursos limitados)
- Ativar “Protocolo de Hemorragia” (se existir): banco de sangue/laboratório.
- Transfusão de CH (quando disponível) se:
- hemorragia em curso com instabilidade, ou
- suspeita de perda importante e não responsivo a 1–2 L de cristalóide.
- Se puder, coletar: Hb/Ht, gasometria/lactato, coagulograma (quando disponível). Em recursos limitados, decisão pode ser clínica.
- Ácido tranexâmico (TXA) se sangramento significativo (e sem contraindicações):
- 1 g IV (em 10 min) + considerar 1 g em 8 h (ou conforme protocolo local).
- Evitar hemodiluição excessiva: após resposta parcial, reduzir cristalóide e priorizar hemoderivados conforme disponibilidade.
6.3. Metas de perfusão intraoperatória
- PAM ≥ 65 mmHg (ou maior se hipertenso crônico/risco de AVC/DRC).
- Perfusão periférica melhorando, EtCO₂ estabilizando.
- Temperatura > 36°C quando possível.
7) Monitorização mínima recomendada (recursos limitados)
Obrigatória:
- PA não invasiva seriada (intervalo curto durante instabilidade), FC, SpO₂.
Ideal se disponível:
- EtCO₂ (capnografia), temperatura, diurese (sonda) em cirurgias maiores.
Quando considerar linha arterial (se houver equipe/material):
- hemorragia importante, uso contínuo de vasopressor, instabilidade recorrente.
8) Diagnósticos diferenciais a checar se não há resposta esperada
- Anestesia profunda/vasoplegia (reduzir agente, vasopressor).
- Pneumotórax/hiperinsuflação/PEEP alto (queda EtCO₂, aumento pressões, dessaturação).
- Tamponamento/embolia (queda súbita, EtCO₂ despenca).
- Anafilaxia (broncoespasmo, rash, hipotensão refratária).
- Arritmias/isquemia.
9) Critérios de escalonamento (chamar suporte/UTI, transferir ou interromper procedimento)
- Necessidade crescente de vasopressor para manter PAM.
- Suspeita de hemorragia não controlada.
- Necessidade de transfusão maciça ou ausência de sangue disponível.
- Instabilidade recorrente apesar de intervenções.
10) Checklists rápidos (para afixar em sala)
Checklist “Hipotensão – 60 segundos”
- Confirmar PA / manguito
- O₂ 100%
- Reduzir anestésico
- Pernas elevadas
- Checar sangramento
- Bolus cristalóide 250–500 mL
- Vasopressor se PAM muito baixa
Checklist “Suspeita de hemorragia”
- Chamar cirurgião para hemostasia
- 2 acessos calibrosos
- Aquecer paciente + fluidos
- TXA 1 g IV (se indicado)
- Solicitar CH (e plasma/plaquetas se disponíveis)
11) Auditoria e treinamento
- Treino simulado semestral do algoritmo.
- Registro padronizado: PA mínima, tempo até intervenção, volume infundido, uso de vasopressor, transfusão, desfecho.
12) Observações de segurança
- Em hipovolemia grave, vasopressor isolado pode piorar perfusão; use como ponte.
- Evitar sobrecarga volêmica em idosos/cardiopatas: bolus menores (250 mL) e reavaliação frequente.
- Individualizar metas pressóricas (ex.: hipertensos podem precisar de PAM 70–75 mmHg).
Desbloqueie explicações detalhadas
Assine o plano Premium e tenha acesso a explicações completas e análises aprofundadas de cada questão.