Você já pensou em como a adoção internacional de bebês e crianças pode ser interessante para estudar a aquisição de primeira e segunda línguas? A criança adotada passa o início de sua vida adquirindo uma língua, mas é interrompida quando muda de país com sua família adotiva, por vezes nunca mais retomando contato com sua língua de origem. Seria possível que essa língua interrompida exerça influência na aquisição da nova língua? Haveria remanescentes dessa língua subdesenvolvida no cérebro/mente da criança mesmo após sua aquisição ter sido interrompida? Um grupo de linguistas de Montreal decidiu investigar se crianças chinesas que foram adotadas por canadenses francófonos aos 12 meses de idade mantinham conhecimentos inconscientes sobre o chinês, mesmo não tendo nenhum contato com a língua chinesa após sua adoção. Utilizando a técnica fMRI, os pesquisadores estudaram imagens cerebrais de três grupos de crianças: Grupo 1: Crianças chinesas de 13 anos de idade que foram adotadas aos 12 meses e, a partir de então, só tiveram contato com a língua francesa, não sendo capazes de falar chinês nem mesmo de se lembrar de qualquer experiência pré-adoção (monolíngues francês, origem chinesa); Grupo 2: Crianças chinesas de 13 anos que se mudaram com suas famílias chinesas para Montreal, tornando-se bilíngues francês-chinês (bilíngues francês-chinês); Grupo 3: Crianças francesas de 13 anos que nunca tiveram contato com o chinês (monolíngues francês, origem canadense). Com base na análise dos resultados, responda: a) Considerando que a língua não é um comportamento hereditário, explique por que os monolíngues de origem chinesa (crianças de 13 anos que perderam o contato com o chinês aos 12 meses de idade) apresentaram o mesmo resultado que os bilíngues francês-chinês (crianças de 13 anos expostas ao chinês desde o seu nascimento). b) Dentre as teorias de aquisição estudadas nesta Unidade de Aprendizagem, há alguma que não consiga explicar esses resultados? Se sim, por quê?

Questão

Você já pensou em como a adoção internacional de bebês e crianças pode ser interessante para estudar a aquisição de primeira e segunda línguas? A criança adotada passa o início de sua vida adquirindo uma língua, mas é interrompida quando muda de país com sua família adotiva, por vezes nunca mais retomando contato com sua língua de origem. Seria possível que essa língua interrompida exerça influência na aquisição da nova língua? Haveria remanescentes dessa língua subdesenvolvida no cérebro/mente da criança mesmo após sua aquisição ter sido interrompida?

Um grupo de linguistas de Montreal decidiu investigar se crianças chinesas que foram adotadas por canadenses francófonos aos 12 meses de idade mantinham conhecimentos inconscientes sobre o chinês, mesmo não tendo nenhum contato com a língua chinesa após sua adoção. Utilizando a técnica fMRI, os pesquisadores estudaram imagens cerebrais de três grupos de crianças:

Grupo 1: Crianças chinesas de 13 anos de idade que foram adotadas aos 12 meses e, a partir de então, só tiveram contato com a língua francesa, não sendo capazes de falar chinês nem mesmo de se lembrar de qualquer experiência pré-adoção (monolíngues francês, origem chinesa);

Grupo 2: Crianças chinesas de 13 anos que se mudaram com suas famílias chinesas para Montreal, tornando-se bilíngues francês-chinês (bilíngues francês-chinês);

Grupo 3: Crianças francesas de 13 anos que nunca tiveram contato com o chinês (monolíngues francês, origem canadense).

Com base na análise dos resultados, responda:

a) Considerando que a língua não é um comportamento hereditário, explique por que os monolíngues de origem chinesa (crianças de 13 anos que perderam o contato com o chinês aos 12 meses de idade) apresentaram o mesmo resultado que os bilíngues francês-chinês (crianças de 13 anos expostas ao chinês desde o seu nascimento).

b) Dentre as teorias de aquisição estudadas nesta Unidade de Aprendizagem, há alguma que não consiga explicar esses resultados? Se sim, por quê?

Resposta

a) Embora a língua (francês, chinês etc.) não seja hereditária, a capacidade neurocognitiva de adquirir linguagem é (isto é, o cérebro humano nasce preparado para extrair regularidades linguísticas do input). Assim, o fato de o Grupo 1 (adotadas aos 12 meses, depois só francês) apresentar padrões cerebrais semelhantes ao Grupo 2 (bilíngues francês‑chinês) pode ser explicado por dois pontos centrais:

  1. Exposição precoce deixa “traços” neurais duradouros (memória implícita / aprendizagem estatística).
    Mesmo que aos 13 anos essas crianças não consigam falar chinês nem tenham memória episódica consciente de experiências pré-adoção, elas passaram aproximadamente o primeiro ano de vida ouvindo chinês. Nesse período, o bebê já aprende inconscientemente propriedades fonológicas e prosódicas (por exemplo, categorias de sons, padrões rítmicos e, no caso do mandarim/cantonês, pistas tonais). Essa aprendizagem pode não ser acessível à consciência e pode não sustentar produção/compreensão “funcional” anos depois, mas ainda assim pode ter deixado:
  • representações neurais latentes (traços implícitos), e/ou
  • sensibilidade residual a padrões da L1 inicial, que reaparecem em tarefas de percepção/processamento medidas por fMRI.
  1. O cérebro pode ter mantido (ou reutilizado) circuitos de processamento da língua inicial.
    Quando a criança passa a viver só em francês, ela reorganiza o sistema linguístico para a nova língua. Porém, isso não implica “apagamento” completo do que foi parcialmente aprendido antes; em vez disso, pode ocorrer:
  • manutenção parcial de circuitos especializados (ainda que não “ligados” ao uso consciente), e/ou
  • recrutamento semelhante de redes linguísticas ao ouvir/processar estímulos chineses, por já ter havido uma etapa inicial de sintonização.

Em síntese: não é “genética do chinês”, e sim plasticidade neural + aprendizagem inicial que deixam marcas detectáveis no cérebro, mesmo quando o comportamento linguístico observável (falar/lembrar) não mostra isso.

b) Sim. Entre teorias clássicas de aquisição, a que tipicamente tem mais dificuldade para explicar esse tipo de resultado é uma versão estritamente behaviorista/empirista baseada apenas em hábito, reforço e uso observável, por exemplo:

  • Behaviorismo (Skinner) em leitura forte: se linguagem é essencialmente um conjunto de hábitos construídos e mantidos por reforço e prática contínua, então após 12 meses e sem qualquer uso por ~12 anos, seria esperado que não restassem diferenças sistemáticas (nem comportamentais nem neurais) entre o Grupo 1 e o Grupo 3 (monolíngues franceses sem contato com chinês). A presença de “assinaturas” neurais semelhantes às de bilíngues sugere que houve aprendizagem inicial robusta e parcialmente persistente, ainda que não reforçada pela prática consciente e não disponível à produção.

Por outro lado, teorias que conseguem acomodar melhor os resultados incluem:

  • Inatismo/gerativismo (em sentido amplo): o cérebro tem predisposições para linguagem e pode formar representações abstratas cedo; a interrupção pode não eliminar totalmente essas representações.
  • Abordagens cognitivo-usage-based/conexionistas: aprendizagem por distribuição/estatística no primeiro ano pode gerar traços implícitos de longa duração; a falta de uso posterior reduz desempenho explícito, mas não necessariamente apaga todas as representações.
  • Perspectivas neurocognitivas de memória implícita: dissociação entre memória episódica consciente e aprendizagem implícita (o sujeito não relata/produz, mas o cérebro “mostra” sensibilidade).

Observação importante: a conclusão “qual teoria não explica” depende de como a teoria é formulada (versão forte vs. versões mais moderadas). Em geral, a incompatibilidade é maior com explicações que exigem reforço/uso contínuo e só reconhecem conhecimento linguístico quando ele aparece como comportamento explícito.

Alternativa correta: (não há alternativas).

Explicação

Como interpretar o achado (fMRI) de que o Grupo 1 se parece com o Grupo 2?

a) Por que isso acontece se língua não é hereditária?

A língua específica (chinês, francês) não é passada geneticamente; o que é biologicamente dado é a capacidade humana de adquirir linguagem e a plasticidade neural para sintonizar o cérebro aos padrões do input linguístico.

Passo a passo do raciocínio:

  1. Aos 12 meses, o bebê já aprendeu muito sobre a língua ambiente.
    Mesmo antes de falar, a criança já categorizou sons e padrões (aprendizagem estatística, percepção de contrastes relevantes etc.).

  2. Parte desse aprendizado é implícita e pode persistir sem acesso consciente.
    Memória implícita ≠ memória autobiográfica. A criança pode não lembrar “episódios” pré-adoção e ainda assim carregar traços neurais de exposição.

  3. fMRI capta processamento neural, não apenas desempenho linguístico visível.
    Uma criança pode não conseguir falar chinês (perdeu produção/fluência), mas ainda recrutar redes semelhantes às de quem manteve o bilinguismo ao processar estímulos chineses.

Conclusão: o resultado é compatível com a ideia de que a exposição inicial ao chinês deixou representações neurais latentes (remanescentes) que reaparecem em medidas neurais, mesmo sem uso consciente.

b) Há teoria que não explica?

Sim, behaviorismo em versão forte (linguagem como hábito sustentado por reforço e prática) tem dificuldade:

  • Se o conhecimento linguístico fosse apenas hábito dependente de prática contínua, o Grupo 1 (12 anos sem chinês) deveria se aproximar do Grupo 3, não do Grupo 2.
  • O achado aponta para aprendizagem precoce durável e parcialmente preservada, mesmo sem reforço posterior e sem manifestação explícita.

Teorias mais compatíveis:

  • Inatismo/gerativismo (predisposições e representações abstratas precoces).
  • Usage-based/conexionismo (aprendizagem estatística e traços de longa duração).
  • Modelos neurocognitivos de memória implícita (dissociação entre “não lembrar/não falar” e “ainda processar”).

Alternativa correta: (não há alternativas).

Mais questões deCâmbio e exterior
Carregando…

Questões relacionadas

Ver últimas questões