Interpretar a função de determinadas práticas em uma sociedade significa compreender uma operação de sentido que nem sempre é clara (e quase nunca é) para as pessoas que vivem na sociedade em questão. Muitas vezes são hábitos naturalizados pelos membros dessa sociedade e, portanto, são simplesmente reproduzidos. Se esse sentido nem sempre é claro, cabe ao etnógrafo tentar trazer à luz esses elementos obscuros e estrangeiros. Contudo, esse sentido tem de ser buscado na própria forma como os povos estudados o elaboram. Aqui se encontra algo que explica a grande importância da pesquisa de campo: só é possível chegar nesse grau de compreensão com a convivência, na imersão com as culturas estudadas. Isso porque existem aspectos que só são captados com a presença constante. Esses aspectos são indescritíveis e levam em conta de modo importante a subjetividade do antropólogo – a que Malinowski chamou de imponderáveis da vida cotidiana. Considerando este excerto, quais são as consequências e implicações para o pensamento histórico de tomar essas práticas a partir de suas funções presentes em uma sociedade?
Questão
Interpretar a função de determinadas práticas em uma sociedade significa compreender uma operação de sentido que nem sempre é clara (e quase nunca é) para as pessoas que vivem na sociedade em questão. Muitas vezes são hábitos naturalizados pelos membros dessa sociedade e, portanto, são simplesmente reproduzidos. Se esse sentido nem sempre é claro, cabe ao etnógrafo tentar trazer à luz esses elementos obscuros e estrangeiros. Contudo, esse sentido tem de ser buscado na própria forma como os povos estudados o elaboram. Aqui se encontra algo que explica a grande importância da pesquisa de campo: só é possível chegar nesse grau de compreensão com a convivência, na imersão com as culturas estudadas. Isso porque existem aspectos que só são captados com a presença constante. Esses aspectos são indescritíveis e levam em conta de modo importante a subjetividade do antropólogo – a que Malinowski chamou de imponderáveis da vida cotidiana. Considerando este excerto, quais são as consequências e implicações para o pensamento histórico de tomar essas práticas a partir de suas funções presentes em uma sociedade?
Alternativas
A) O funcionalismo pôde demonstrar como cada uma das culturas teria um modo semelhante de transformar algo em parte de seu cotidiano e de dar um significado para aquilo.
B) As implicações dessas novas formulações, propostas pelo funcionalismo malinowskiano estariam na continuação de um paradigma de interpretação baseado em categorias universalistas.
C) No que diz respeito às temporalidades e possibilidades históricas, esse pensamento inauguraria, juntamente com o culturalismo, a ideia de temporalidades universais.
D) Em oposição ao tempo único dos evolucionistas, pensava a passagem do tempo não como uma categoria estendida para todos os lugares do Planeta, mas como algo que teria um ritmo muito próprio em cada cultura, com objetivos e princípios próprios.
E) Uma de suas implicações estaria em demonstrar que a própria noção de passagem do tempo teria um sentido compartilhado por todas as culturas.
Explicação
O excerto descreve uma abordagem claramente associada ao funcionalismo de Malinowski: compreender práticas e instituições a partir de suas funções no presente (como operam e fazem sentido “agora” para os membros da sociedade), acessando isso pela pesquisa de campo, pela imersão e pelos “imponderáveis da vida cotidiana”.
Ao tomar as práticas por suas funções atuais, a consequência para o pensamento histórico é um deslocamento de modelos que supunham um tempo único e linear, válido para todas as sociedades (como em leituras evolucionistas que colocavam culturas em uma mesma “escada” temporal). Em vez disso, ganha força a ideia de que cada cultura possui princípios próprios de organização social e simbólica, e que suas transformações não precisam obedecer a um padrão universal de desenvolvimento.
Assim, historicamente, essa perspectiva implica:
- crítica ao universalismo evolucionista (uma mesma temporalidade para todos);
- reconhecimento de ritmos e objetivos próprios de cada cultura, isto é, diferentes maneiras de viver e organizar a passagem do tempo e a mudança social;
- interpretação do social a partir do ponto de vista nativo e da observação direta do cotidiano.
Entre as alternativas, a única que expressa essa oposição ao “tempo único” e afirma temporalidades/ritmos próprios a cada cultura é a D. As demais tendem a atribuir ao funcionalismo um universalismo temporal ou interpretativo que o texto justamente problematiza.
Alternativa correta: (D).