Ao longo do poema, o sujeito poético faz referência à ousadia dos navegadores portugueses que partiram à descoberta de mares e terras longínquas. Relaciona a apóstrofe presente no verso 1 com o sentido dos versos 3 a 6.
Questão
Ao longo do poema, o sujeito poético faz referência à ousadia dos navegadores portugueses que partiram à descoberta de mares e terras longínquas. Relaciona a apóstrofe presente no verso 1 com o sentido dos versos 3 a 6.
Horizonte
Ó mar anterior a nós, teus medos Tinham coral e praias e arvoredos. Desvendadas a noite e a cerração^1, As tormentas passadas e o mistério, Abria em flor o Longe, e o Sul sidério^2 'Splendia' sobre as naus da iniciação.
Linha severa da longínqua costa – Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta Em árvores onde o Longe nada tinha; Mais perto, abre-se a terra em sons e cores; E, no desembarcar, há aves, flores, Onde era só, de longe a abstrata linha.
O sonho é ver as formas invisíveis Da distância imprecisa, e, com sensíveis Movimentos da esp'rança e da vontade, Buscar na linha fria do horizonte A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte – Os beijos merecidos da Verdade.
Fernando Pessoa, Mensagem, Porto, Porto Editora, 2024 (p. 50)
Notas: 1 cerração — nevoeiro; 2 sidério — repleto de estrelas, celestial; 3 Splendia — Brilhava
Resposta
94%O mar é interpelado como “ó mar anterior a nós”, atribuindo‑lhe medos (“teus medos”) que os navegadores portugueses tiveram de vencer; nos versos 3 a 6, explica‑se o sentido dessa apóstrofe ao mostrar que, ao serem “desvendadas a noite e a cerração” e ultrapassadas “as tormentas” e “o mistério”, o desconhecido se torna revelação e promessa: abre‑se “em flor” o Longe, e o “Sul sidério” passa a brilhar sobre as naus, simbolizando a vitória da ousadia e da descoberta sobre os antigos temores do mar.
Explicação
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Identificação da apóstrofe (v. 1): No verso 1, o sujeito poético dirige-se diretamente ao mar — “Ó mar anterior a nós” — usando uma apóstrofe (interpelação direta a uma entidade). Além disso, atribui ao mar “medos” (“teus medos”), o que personaliza o mar e concentra nele a ideia do desconhecido e do temor antes das navegações.
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Sentido dos versos 3 a 6: Nos versos 3 a 6, descreve-se o que acontece quando os navegadores ousam avançar:
- “Desvendadas a noite e a cerração” (o que estava encoberto pela escuridão/nevoeiro passa a ser revelado);
- “As tormentas passadas e o mistério” (as dificuldades e o enigma do mar são superados);
- “Abria em flor o Longe” (metáfora: o distante/desconhecido torna-se fecundo, belo, acessível — como uma flor que se abre);
- “o Sul sidério ‘Splendia’ sobre as naus” (imagem de luz/guia celeste: as estrelas do hemisfério sul passam a iluminar e orientar as embarcações).
- Relação entre a apóstrofe e os versos 3 a 6: A apóstrofe do verso 1 chama o mar “anterior” (o mar do tempo em que ainda não tinha sido enfrentado/ultrapassado) e fixa a ideia de medo. Já os versos 3 a 6 desenvolvem exatamente a consequência da ousadia dos navegadores: ao navegar, eles desfazem o “nevoeiro” e a “noite” (ignorância), vencem tormentas e mistérios (perigos), e transformam o “Longe” em descoberta luminosa e prometedora (o “Sul sidério” brilhando sobre as naus).
Conclusão: a apóstrofe enfatiza o mar como símbolo do medo e do desconhecido; os versos 3 a 6 explicam a superação desse medo pela ação navegadora, que revela e ilumina o mundo antes oculto.
Alternativa correta: (sem alternativas).