A denúncia do papel da mídia na formação e na divulgação de preconceitos linguísticos, mediante análise de cenas da novela Escrava Isaura (Rede Globo, 1976), baseada no romance de Bernardo Guimarães, e do filme americano No coração de Clara ambos tratando de questões raciais, é a tônica do texto de Fábio Lopes da Silva: Dois casos de preconceito linguístico na mídia. Em ambos os casos, o pretenso anti-racismo retratado pelo o quê se esvazia no como é linguisticamente expresso. Na novela, o autor centra a atenção na forma como os personagens da Casa Grande se expressam, isto é, no tipo de construções gramaticais eleitas para representar a fala dos brancos (incluindo entre esses a escrava 'mocinha' Isaura) emoldurada por ‘todos os ss e rr da norma gramatical’, e a fala dos demais escravos estilo ‘Tio Barnabé’ (p.55); e destaca, como efeito induzido, a reprodução do mito de uma língua perfeita e intocada, tomado como realidade histórica, o que, segundo uma avaliação perspicaz do autor, leva as novelas de época a provocarem um prejuízo cultural. O autor projeta uma associação bastante interessante entre a chamada corrupção da língua e ‘uma espécie de vírus lingüístico que, na época da escravidão, permanecia confinado e controlado…’ (p.57). No filme, é recortada uma cena em que o garoto branco, dignificando a língua materna da governanta negra, dirige-se a ela em patuá jamaicano, legendado em português como ‘num vô fazê isso’, episódio que reproduz um preconceito generalizado: o de que construções como essa se restringem a determinada camada sócio-demográfica, donde o autor conclui que ‘atribuímos a nós mesmos uma língua perfeitamente imaginária’ (p.61)” (SILVA; MOURA, 2002, p. 156). SILVA F. L. da.; MOURA, H. M de M. (org.) O Direito à Fala: A Questão do Preconceito Linguístico. Delta: Documentação de Estudos em Linguística Teórica e Aplicada, v. 18, n. 1, 2002. Disponível em: https://www.scielo.br/j/delta/a/rKHyDQyPx59JLFT4gkGRTdk. Acesso em: 24 abr. 2024. Com base nas informações apresentadas, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas: I. O texto destaca aspectos relacionados ao preconceito linguístico e como a mídia o propaga reproduzindo o falar das camadas sociais mais baixas como algo indigno ou inferior. PORQUE II. A variedade linguística que pode ser observada na casa grande, na novela do mesmo nome, é normativa e corresponde ao padrão a ser utilizado por todos os falantes da língua em seus variados contextos e situações de uso. Assinale a alternativa correta.
Questão
A denúncia do papel da mídia na formação e na divulgação de preconceitos linguísticos, mediante análise de cenas da novela Escrava Isaura (Rede Globo, 1976), baseada no romance de Bernardo Guimarães, e do filme americano No coração de Clara ambos tratando de questões raciais, é a tônica do texto de Fábio Lopes da Silva: Dois casos de preconceito linguístico na mídia. Em ambos os casos, o pretenso anti-racismo retratado pelo o quê se esvazia no como é linguisticamente expresso. Na novela, o autor centra a atenção na forma como os personagens da Casa Grande se expressam, isto é, no tipo de construções gramaticais eleitas para representar a fala dos brancos (incluindo entre esses a escrava 'mocinha' Isaura) emoldurada por ‘todos os ss e rr da norma gramatical’, e a fala dos demais escravos estilo ‘Tio Barnabé’ (p.55); e destaca, como efeito induzido, a reprodução do mito de uma língua perfeita e intocada, tomado como realidade histórica, o que, segundo uma avaliação perspicaz do autor, leva as novelas de época a provocarem um prejuízo cultural. O autor projeta uma associação bastante interessante entre a chamada corrupção da língua e ‘uma espécie de vírus lingüístico que, na época da escravidão, permanecia confinado e controlado…’ (p.57). No filme, é recortada uma cena em que o garoto branco, dignificando a língua materna da governanta negra, dirige-se a ela em patuá jamaicano, legendado em português como ‘num vô fazê isso’, episódio que reproduz um preconceito generalizado: o de que construções como essa se restringem a determinada camada sócio-demográfica, donde o autor conclui que ‘atribuímos a nós mesmos uma língua perfeitamente imaginária’ (p.61)” (SILVA; MOURA, 2002, p. 156).
SILVA F. L. da.; MOURA, H. M de M. (org.) O Direito à Fala: A Questão do Preconceito Linguístico. Delta: Documentação de Estudos em Linguística Teórica e Aplicada, v. 18, n. 1, 2002. Disponível em: https://www.scielo.br/j/delta/a/rKHyDQyPx59JLFT4gkGRTdk. Acesso em: 24 abr. 2024.
Com base nas informações apresentadas, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas:
I. O texto destaca aspectos relacionados ao preconceito linguístico e como a mídia o propaga reproduzindo o falar das camadas sociais mais baixas como algo indigno ou inferior.
PORQUE
II. A variedade linguística que pode ser observada na casa grande, na novela do mesmo nome, é normativa e corresponde ao padrão a ser utilizado por todos os falantes da língua em seus variados contextos e situações de uso.
Assinale a alternativa correta.
Alternativas
Alternativa 1: A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa.
Alternativa 2: As asserções I e II são verdadeiras, e a II é uma justificativa correta da I.
Alternativa 3: As asserções I e II são verdadeiras, mas a II não é uma justificativa correta da I.
Alternativa 4: A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira.
Alternativa 5: As asserções I e II são falsas.
Explicação
Análise da asserção I O texto-base denuncia justamente o papel da mídia na formação/divulgação de preconceitos linguísticos. Ele mostra que, na novela, a fala dos brancos (Casa Grande) é construída com traços associados à norma gramatical prestigiosa (“todos os ss e rr da norma gramatical”), enquanto a fala dos escravizados é estilizada como “Tio Barnabé”, produzindo o efeito de associar certas variedades populares a algo inferior/indigno. Logo, a asserção I é verdadeira.
Análise da asserção II A asserção II afirma que a variedade linguística observada na Casa Grande é normativa e “corresponde ao padrão a ser utilizado por todos os falantes (...) em seus variados contextos”.
O texto-base não defende isso; ao contrário, critica o mito de uma “língua perfeita e intocada” tomado como realidade histórica e aponta o prejuízo cultural de novelas de época por reforçarem essa visão. Além disso, do ponto de vista sociolinguístico, não existe um único padrão que deva ser usado por todos em quaisquer contextos; há variação e adequação às situações de uso.
Portanto, a asserção II é falsa.
Relação entre I e II Como II é falsa, não pode justificar I.
Alternativa correta: (1).