"Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim; isto é, se poria em primeiro lugar o nascimento ou a morte. Suposto o uso vulgar; nasci? Ou morri? Suponho o uso vulgar, — duas considerações me foram propostas: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor; para quem a campanha foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Passaram-se meses, que também contou a sua morte, não a pós no introito; mas no cabo: diferença radical entre este livro e o outro que eu escrevi. ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881." Assinale a alternativa que explica o procedimento retórico empregado no trecho.

Questão

"Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim; isto é, se poria em primeiro lugar o nascimento ou a morte. Suposto o uso vulgar; nasci? Ou morri? Suponho o uso vulgar, — duas considerações me foram propostas: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor; para quem a campanha foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Passaram-se meses, que também contou a sua morte, não a pós no introito; mas no cabo: diferença radical entre este livro e o outro que eu escrevi. ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881." Assinale a alternativa que explica o procedimento retórico empregado no trecho.

Alternativas

A) uso do quiasmo na expressão 'autor defunto / defunto autor' que inverte a hierarquia substantivo-adjetiva para enfatizar a condição existencial de quem escreve após a morte.

92%

B) emprego da hipérbole ao comparar a obra ao Pentateuco, visando exaltar o caráter sagrado e religioso da narrativa em oposição ao ateísmo científico da época.

C) utilização do eufemismo para suavizar a ideia da morte, apresentando a 'campa' como um 'berço' com o objetivo de consolar o leitor sobre a diminutude humana.

D) linearidade narrativa característica do Realismo, que busca organizar os fatos de forma cronológica para garantir a clareza e a objetividade científica.

E) valorização do 'uso vulgar' da escrita, aproximando o narrador do público leitor através de uma linguagem desprovida de figuras de estilo ou ambiguidades.

Explicação

  1. No trecho, o narrador discute a ordem “vulgar” de uma autobiografia (começar pelo nascimento ou pela morte) e introduz uma justificativa que é, ao mesmo tempo, lógica e irônica: ele escreve como morto.

  2. O ponto central do procedimento retórico está na formulação: “não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor”. Aqui ocorre uma inversão simétrica dos termos (AB → BA):

  • “autor defunto” (substantivo + qualificativo)
  • “defunto autor” (qualificativo + substantivo)
  1. Essa inversão é um caso típico de quiasmo/estrutura cruzada, que enfatiza a mudança de perspectiva: não é apenas um autor que morreu; é um morto que assume a posição de autor. O efeito é ressaltar a condição narrativa singular (um narrador que escreve “depois” da morte) e instaurar a ironia característica de Machado.

  2. As demais alternativas não descrevem o núcleo do recurso:

  • (B) não há comparação com Pentateuco.
  • (C) há metáfora (“campa” como “berço”), mas ela não é o procedimento central pedido, e não funciona principalmente como suavização (eufemismo), e sim como ironia e deslocamento.
  • (D) o trecho questiona justamente a linearidade cronológica.
  • (E) há figuras de estilo e ambiguidades, não “linguagem desprovida” delas.

Alternativa correta: (A).

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