É ELA! É ELA! É ela! é ela! - murmurei tremendo, E o eco ao longe murmurou - é ela!... Eu a vi... minha fada aérea e pura, A minha lavadeira na janela! Dessas águas-furtadas onde eu moro Eu a vejo estendendo no telhado Os vestidos de chita, as saias brancas... Eu a vejo e suspiro enamorado! Esta noite eu ousei mais atrevido Nas telhas que estalavam nos meus passos Ir espiar seu venturoso sono, Vê-la mais bela de Morfeu nos braços! Como dormia! que profundo sono!... Tinha na mão o ferro do engomado... Como roncava maviosa e pura! Quase caí na rua desmaiado! Afastei a janela, entrei medroso: Palpitava-lhe o seio adormecido... Fui beijá-la... roubei do seio dela Um bilhete que estava ali metido... Oh! De certo ... (pensei) é doce página Onde a alma derramou gentis amores!... São versos dela... que amanhã decerto Ela me enviará cheios de flores... Trem de febre! Venturosa folha! Quem pousasse contigo neste seio! Como Otelo beijando a sua esposa, Eu beijei-a a tremer de devaneio... É ela! é ela! - repeti tremendo, Mas cantou nesse instante uma coruja... Abri cioso a página secreta... Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja! Mas se Werther morreu por ver Carlota Dando pão com manteiga às criancinhas, Se achou-a assim mais bela... eu mais te adoro Sonhando-te a lavar as camisinhas! É ela! é ela! meu amor, minh'alma, A Laura, a Beatriz que o céu revela... É ela! é ela! - murmurei tremendo, E o eco ao longe suspirou - é ela! AZEVEDO, Álvares de. Lira dos vinte anos. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000021.pdf. Acesso em: 5 fev. 2025. A idealização do amor é um tema comum na poesia romântica, inclusive na obra do poeta Álvares de Azevedo. O poema “É ela! É ela!” é uma paródia, pois inverte satiricamente essa idealização. a) Identifique no poema duas expressões relacionadas à idealização da mulher e explique-as (se necessário, consulte um dicionário). b) Identifique e explique expressões e situações que invertem a idealização da mulher amada, rebaixando-a socialmente e revelando a realidade prosaica. c) Explique o que ocorreu após o canto de uma coruja e qual foi a reação do eu lírico.
Questão
É ELA! É ELA!
É ela! é ela! - murmurei tremendo,
E o eco ao longe murmurou - é ela!...
Eu a vi... minha fada aérea e pura,
A minha lavadeira na janela!
Dessas águas-furtadas onde eu moro
Eu a vejo estendendo no telhado
Os vestidos de chita, as saias brancas...
Eu a vejo e suspiro enamorado!
Esta noite eu ousei mais atrevido
Nas telhas que estalavam nos meus passos
Ir espiar seu venturoso sono,
Vê-la mais bela de Morfeu nos braços!
Como dormia! que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!
Quase caí na rua desmaiado!
Afastei a janela, entrei medroso:
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
Um bilhete que estava ali metido...
Oh! De certo ... (pensei) é doce página
Onde a alma derramou gentis amores!...
São versos dela... que amanhã decerto
Ela me enviará cheios de flores...
Trem de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
Eu beijei-a a tremer de devaneio...
É ela! é ela! - repeti tremendo,
Mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!
Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas,
Se achou-a assim mais bela... eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camisinhas!
É ela! é ela! meu amor, minh'alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela...
É ela! é ela! - murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou - é ela!
AZEVEDO, Álvares de. Lira dos vinte anos. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000021.pdf. Acesso em: 5 fev. 2025.
A idealização do amor é um tema comum na poesia romântica, inclusive na obra do poeta Álvares de Azevedo. O poema “É ela! É ela!” é uma paródia, pois inverte satiricamente essa idealização.
a) Identifique no poema duas expressões relacionadas à idealização da mulher e explique-as (se necessário, consulte um dicionário).
b) Identifique e explique expressões e situações que invertem a idealização da mulher amada, rebaixando-a socialmente e revelando a realidade prosaica.
c) Explique o que ocorreu após o canto de uma coruja e qual foi a reação do eu lírico.
Resposta
94%a) • “minha fada aérea e pura”: o eu lírico compara a mulher a uma “fada”, ser fantástico/ideal, associado a leveza (“aérea”) e perfeição moral (“pura”), isto é, uma figura acima do cotidiano. • “A Laura, a Beatriz que o céu revela”: ele equipara a amada a musas/figuras idealizadas da tradição literária (Laura, ligada ao amor ideal em Petrarca; Beatriz, guia espiritual em Dante), elevando-a a um modelo quase celestial.
b) A paródia aparece quando o poema “puxa para baixo” a mulher e o amor, substituindo o sublime pelo trivial e até grotesco: • “A minha lavadeira na janela!” / “Eu a vejo estendendo no telhado / Os vestidos de chita, as saias brancas...”: em vez de dama nobre e inacessível, ela é apresentada como trabalhadora doméstica (lavadeira). “Chita” é tecido simples e popular, marcando condição social modesta e cotidiano comum. • “Tinha na mão o ferro do engomado...”: o objeto do trabalho doméstico invade a cena que, na idealização romântica, seria de contemplação espiritual; aqui, o detalhe material “quebra” o encanto. • “Como roncava maviosa e pura!”: a ação de roncar (prosaica, corporal) é descrita com adjetivos típicos do ideal (“maviosa”, “pura”), criando contraste cômico: o sublime aplicado ao ridículo. • A expectativa de poesia amorosa é desmontada por “um bilhete” que parecia “doce página / Onde a alma derramou gentis amores!... / São versos dela...”, mas não é. A inversão maior é o conteúdo real do bilhete (ver item c). • “rol de roupa suja!”: a imagem final é de rebaixamento máximo, pois troca a “página secreta” do amor por uma lista de tarefas domésticas. “Roupa suja” também sugere o anti-ideal: o sujo, o material, o que não se romantiza.
c) Após o canto de uma coruja (marco súbito que interrompe o devaneio), o eu lírico abre “cioso” (ansioso/zeloso) a “página secreta” que havia roubado do seio da mulher, esperando encontrar uma declaração amorosa ou versos. Ao ler, descobre que não era mensagem romântica, mas “um rol de roupa suja” (uma lista de roupas a lavar/organizar). A reação do eu lírico é de choque e frustração cômica (“Oh! meu Deus!”), pois o ideal construído desmorona no contato com a realidade prosaica; ainda assim, ele tenta manter a adoração de forma irônica, dizendo amá-la até mais nessa cena cotidiana.
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Explicação
a) Expressões de idealização (e sentido)
- “minha fada aérea e pura”
- “fada” remete a um ser sobrenatural/perfeito, ligado ao encantamento.
- “aérea” sugere leveza, algo etéreo, distante do chão e do cotidiano.
- “pura” reforça a ideia de perfeição moral/angelical.
- “A Laura, a Beatriz que o céu revela”
- “Laura” e “Beatriz” são referências clássicas de amores idealizados na tradição literária.
- A formulação “que o céu revela” eleva a mulher a um plano quase sagrado, como se fosse uma visão celestial.
b) Expressões e situações que invertem a idealização (rebaixamento e realidade prosaica) O poema cria humor/paródia ao aplicar linguagem sublime a uma figura e a ações do dia a dia:
- “A minha lavadeira na janela!”: a mulher amada não é uma dama aristocrática, mas uma trabalhadora humilde (lavadeira), o que rebaixa socialmente a figura ideal.
- “estendendo no telhado / Os vestidos de chita”: “chita” indica tecido simples/popular, reforçando o cotidiano e a condição social modesta.
- “Tinha na mão o ferro do engomado”: o objeto doméstico invade a cena amorosa, substituindo símbolos românticos por utensílios de trabalho.
- “Como roncava”: o ronco (dado corporal e pouco “poético”) quebra a aura ideal.
- O “bilhete” no seio, que ele imagina ser confissão amorosa (“doce página”, “versos”), vira um elemento de comicidade ao revelar conteúdo nada romântico.
c) O que ocorreu após o canto da coruja e a reação do eu lírico
- No momento em que “cantou… uma coruja”, o eu lírico abre a página/bilhete que havia tirado do seio dela.
- Ele esperava encontrar versos de amor, mas descobre “um rol de roupa suja” (uma lista de roupas/tarefas domésticas).
- Reage com espanto e decepção cômica (“Oh! meu Deus!”), porque o devaneio romântico é desmontado pela realidade trivial.
Alternativa correta: (não se aplica).