Educação para as Relações Étnico-Raciais: Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, é um dos textos mais impactantes da história da literatura brasileira. Escrito em forma de diário, nele, o leitor acompanha a rotina de uma mulher, mãe, favelada que vende papelão para alimentar os filhos, passa por toda a sorte de dificuldades e, à noite, registra a crueldade de sua realidade e expõe sua vida miserável por meio de um desabafo corajoso e emocionante. Um dos temas mais contundentes de Quarto de despejo é a questão racial. Por ser negra, a narradora propõe inúmeras reflexões acerca de seu papel na sociedade, como expõem os trechos a seguir: 13 DE MAIO Hoje amanheceu chovendo. E um dia simpático para mim. E o dia da Abolição. Dia que comemoramos a libertação dos escravos… Nas prisões os negros eram os bodes espiatorios. Mas os brancos agora são mais cultos. E não nos trata com despreso. Que Deus ilumine os brancos para que os pretos sejam feliz. Continua chovendo. E eu tenho só feijão e sal. A chuva está forte. Mesmo assim, mandei os meninos para a escola. Estou escrevendo até passar a chuva, para eu ir lá no senhor Manuel vender os ferros. Com o dinheiro dos ferros vou comprar arroz e linguiça. A chuva passou um pouco. Vou sair. ...Eu tenho tanto dó dos meus filhos. Quando eles vê as coisas de comer eles brada: —Viva a mamãe! 16 DE JUNHO [...] —É pena você ser preta. Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rústico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe, fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. E indisciplinado. Se é que existe reincarnações, eu quero voltar sempre preta. ...Um dia, um branco disse-me: —Se os pretos tivessem chegado ao mundo depois dos brancos, aí os brancos podiam protestar com razão. Mas, nem o branco nem o preto conhece a sua origem. O branco é que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? Se o negro bebe pinga, o branco bebe. A enfermidade que atinge o preto, atinge o branco. Se o branco sente fome, o negro também. A natureza não seleciona ninguém. Com base em uma educação para as relações étnico-raciais, imagine a seguinte situação: você precisará trabalhar com este tema em sala de aula e elegeu Quarto de despejo como fio condutor. Para cumprir essa atividade, você fará a leitura do texto literário, utilizará os trechos acima para discussão, além de pesquisa teórica acerca do tema. A partir dessa situação, analise as afirmativas a seguir que podem contribuir com elementos para a reflexão proposta. I. A ausência da escolarização é um dos efeitos sociais mais devastadores da proibição do acesso do negro às escolas. Os deslizes gramaticais em palavras como “despreso” e “iducado” podem ser compreendidos como marca de tal ausência na vida da protagonista de Quarto de despejo. II. O lugar privilegiado ocupado pelo branco é uma dimensão debatida em Quarto de despejo. Há um entrelace entre a branquitude e os privilégios sustentado como um direito natural, como expõe o trecho “que Deus ilumine os brancos para que os pretos sejam feliz”. III. A narradora de Quarto de despejo explicita o fato de a abolição da escravatura não ser uma data relevante para a população negra, pois, como expõe o trecho “mas os brancos agora são mais cultos e não nos trata com despreso”, o racismo é um discurso inexistente na sociedade brasileira. IV. O discurso da narradora expõe a importância do debate a respeito dos preceitos eugenistas e higienistas, como expõe o trecho “se os pretos tivessem chegado ao mundo depois dos brancos, aí os brancos podiam protestar com razão”, reforçando a diferença natural entre as raças. É correto o que se afirma em:

Questão

Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, é um dos textos mais impactantes da história da literatura brasileira. Escrito em forma de diário, nele, o leitor acompanha a rotina de uma mulher, mãe, favelada que vende papelão para alimentar os filhos, passa por toda a sorte de dificuldades e, à noite, registra a crueldade de sua realidade e expõe sua vida miserável por meio de um desabafo corajoso e emocionante.

Um dos temas mais contundentes de Quarto de despejo é a questão racial. Por ser negra, a narradora propõe inúmeras reflexões acerca de seu papel na sociedade, como expõem os trechos a seguir:

13 DE MAIO Hoje amanheceu chovendo. E um dia simpático para mim. E o dia da Abolição. Dia que comemoramos a libertação dos escravos… Nas prisões os negros eram os bodes espiatorios. Mas os brancos agora são mais cultos. E não nos trata com despreso. Que Deus ilumine os brancos para que os pretos sejam feliz. Continua chovendo. E eu tenho só feijão e sal. A chuva está forte. Mesmo assim, mandei os meninos para a escola. Estou escrevendo até passar a chuva, para eu ir lá no senhor Manuel vender os ferros. Com o dinheiro dos ferros vou comprar arroz e linguiça. A chuva passou um pouco. Vou sair. ...Eu tenho tanto dó dos meus filhos. Quando eles vê as coisas de comer eles brada: —Viva a mamãe!

16 DE JUNHO [...] —É pena você ser preta. Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rústico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe, fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. E indisciplinado. Se é que existe reincarnações, eu quero voltar sempre preta. ...Um dia, um branco disse-me: —Se os pretos tivessem chegado ao mundo depois dos brancos, aí os brancos podiam protestar com razão. Mas, nem o branco nem o preto conhece a sua origem. O branco é que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? Se o negro bebe pinga, o branco bebe. A enfermidade que atinge o preto, atinge o branco. Se o branco sente fome, o negro também. A natureza não seleciona ninguém.

Com base em uma educação para as relações étnico-raciais, imagine a seguinte situação: você precisará trabalhar com este tema em sala de aula e elegeu Quarto de despejo como fio condutor. Para cumprir essa atividade, você fará a leitura do texto literário, utilizará os trechos acima para discussão, além de pesquisa teórica acerca do tema.

A partir dessa situação, analise as afirmativas a seguir que podem contribuir com elementos para a reflexão proposta.

I. A ausência da escolarização é um dos efeitos sociais mais devastadores da proibição do acesso do negro às escolas. Os deslizes gramaticais em palavras como “despreso” e “iducado” podem ser compreendidos como marca de tal ausência na vida da protagonista de Quarto de despejo. II. O lugar privilegiado ocupado pelo branco é uma dimensão debatida em Quarto de despejo. Há um entrelace entre a branquitude e os privilégios sustentado como um direito natural, como expõe o trecho “que Deus ilumine os brancos para que os pretos sejam feliz”. III. A narradora de Quarto de despejo explicita o fato de a abolição da escravatura não ser uma data relevante para a população negra, pois, como expõe o trecho “mas os brancos agora são mais cultos e não nos trata com despreso”, o racismo é um discurso inexistente na sociedade brasileira. IV. O discurso da narradora expõe a importância do debate a respeito dos preceitos eugenistas e higienistas, como expõe o trecho “se os pretos tivessem chegado ao mundo depois dos brancos, aí os brancos podiam protestar com razão”, reforçando a diferença natural entre as raças.

É correto o que se afirma em:

Alternativas

A) I, apenas.

B) I e II, apenas.

92%

C) III e IV, apenas.

D) I, II e III, apenas.

E) I, II, III e IV.

Explicação

Analisando as afirmativas à luz de uma educação para as relações étnico-raciais e dos trechos de Quarto de despejo:

I. Verdadeira. A limitação de acesso da população negra à escolarização (historicamente, inclusive por mecanismos legais e sociais de exclusão) produz efeitos duradouros. No texto de Carolina Maria de Jesus, grafias como “despreso” e “iducado” podem ser lidas, no trabalho pedagógico, como marcas de uma escolarização precária/negada — um efeito social da desigualdade racial e de classe, e não como “inferioridade” da narradora.

II. Verdadeira. A obra permite discutir branquitude e privilégios como posições naturalizadas socialmente. O trecho “Que Deus ilumine os brancos para que os pretos sejam feliz” evidencia uma assimetria: a felicidade/condição do negro aparece como dependente da atitude do branco (da “iluminação” moral do branco), o que é um ponto fértil para debate sobre hierarquias racialmente estruturadas.

III. Falsa. A afirmativa distorce o sentido do texto: a narradora não afirma que a abolição seja irrelevante nem que o racismo seja inexistente. Pelo contrário, ela menciona perseguição e responsabilização dos negros (“bodes expiatórios”) e relata comentários racistas (“É pena você ser preta.”). Logo, não se sustenta dizer que “o racismo é um discurso inexistente na sociedade brasileira”.

IV. Falsa. O trecho citado (“Se os pretos tivessem chegado ao mundo depois dos brancos...”) é usado para questionar a suposta superioridade branca e a lógica de hierarquização racial (“nem o branco nem o preto conhece a sua origem... O branco é que diz que é superior”). Portanto, ele não reforça “diferença natural entre as raças”; ao contrário, tensiona esse tipo de argumento, o que inviabiliza a conclusão proposta na afirmativa.

Assim, estão corretas apenas I e II.

Alternativa correta: (B).

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