"Seriam nove horas do dia. Um sol ardente de março esbate-se nas venezianas que vestem as sacadas de uma sala, nas Laranjeiras. A luz coada pelas verdes empanadas debuxa com a suavidade do nimbo o gracioso busto de Aurélia sobre o aveludado escarlate do papel que forra o gabinete. Reclinada na conversadeira com os olhos a vagar pelo crepúsculo do aposento, a moça parece imersa em intensa cogitação. O recolho apaga-lhe no semblante, como no porte, a reverberação mordaz que de ordinário ela desfere de si, como a chama sulfúrea de um relâmpago. Mas a serenidade que se derrama por toda a sua pessoa, se de alguma sorte desmaia a cintilação de sua beleza, a embebe de um fluido inefável de meiguice e carinho, que a torna irresistível" (Alencar, 2019, p. 12). Fonte: ALENCAR, J. de. Senhora. 3. ed. Jandira: Principis, 2019. Publicado em 1874, Senhora, de José de Alencar, é uma obra que já apresenta traços do que viria a ser o movimento Realista. No entanto, a obra ainda guarda importantes traços do Romantismo. Considerando as informações apresentadas e a leitura do excerto de Senhora, analise as afirmativas a seguir: I. Diferente das demais obras de José de Alencar, Senhora apresenta uma linguagem objetiva, evitando descrições poéticas das cenas e personagens. II. O excerto apresenta harmonia entre os aspectos naturais do dia e o estado de espírito da personagem, de modo que há um espelhamento entre ambos. III. Seguindo a tradição romântica, Aurélia, a protagonista, é descrita de maneira idealizada, cabendo destaque para a forma como o narrador descreve sua beleza. IV. A representação do feminino em Senhora visa à verossimilhança, traço realista, o que é reforçado pela forma racional como as ações de Aurélia são descritas no excerto. É correto o que se afirma em:
Questão
"Seriam nove horas do dia. Um sol ardente de março esbate-se nas venezianas que vestem as sacadas de uma sala, nas Laranjeiras. A luz coada pelas verdes empanadas debuxa com a suavidade do nimbo o gracioso busto de Aurélia sobre o aveludado escarlate do papel que forra o gabinete. Reclinada na conversadeira com os olhos a vagar pelo crepúsculo do aposento, a moça parece imersa em intensa cogitação. O recolho apaga-lhe no semblante, como no porte, a reverberação mordaz que de ordinário ela desfere de si, como a chama sulfúrea de um relâmpago. Mas a serenidade que se derrama por toda a sua pessoa, se de alguma sorte desmaia a cintilação de sua beleza, a embebe de um fluido inefável de meiguice e carinho, que a torna irresistível" (Alencar, 2019, p. 12).
Fonte: ALENCAR, J. de. Senhora. 3. ed. Jandira: Principis, 2019.
Publicado em 1874, Senhora, de José de Alencar, é uma obra que já apresenta traços do que viria a ser o movimento Realista. No entanto, a obra ainda guarda importantes traços do Romantismo. Considerando as informações apresentadas e a leitura do excerto de Senhora, analise as afirmativas a seguir:
I. Diferente das demais obras de José de Alencar, Senhora apresenta uma linguagem objetiva, evitando descrições poéticas das cenas e personagens. II. O excerto apresenta harmonia entre os aspectos naturais do dia e o estado de espírito da personagem, de modo que há um espelhamento entre ambos. III. Seguindo a tradição romântica, Aurélia, a protagonista, é descrita de maneira idealizada, cabendo destaque para a forma como o narrador descreve sua beleza. IV. A representação do feminino em Senhora visa à verossimilhança, traço realista, o que é reforçado pela forma racional como as ações de Aurélia são descritas no excerto.
É correto o que se afirma em:
Alternativas
Alternativa 1: I e II, apenas.
Alternativa 2: I e III, apenas.
Alternativa 3: II e III, apenas.
Alternativa 4: II, III e IV, apenas.
Alternativa 5: I, II e IV, apenas.
Explicação
Vamos avaliar cada afirmativa à luz do excerto e das características do Romantismo (ainda predominantes em Senhora).
I. Falsa. O trecho é marcadamente descritivo e poético, com imagens e escolhas lexicais subjetivas (“nimbo”, “chama sulfúrea de um relâmpago”, “fluido inefável”, “meiguice e carinho”). Portanto, não há linguagem objetiva nem fuga de poeticidade.
II. Verdadeira. Há correspondência (espelhamento) entre o ambiente e o estado interior de Aurélia: a luz “coada” e o “crepúsculo do aposento”, a suavidade e o recolhimento do cenário acompanham a personagem “imersa em intensa cogitação”, com serenidade e introspecção. Esse paralelismo é um recurso típico da sensibilidade romântica.
III. Verdadeira. Aurélia é descrita de forma idealizada, com ênfase em sua beleza e aura quase sublime (“gracioso busto”, “cintilação de sua beleza”, “fluido inefável”, “irresistível”). Isso se alinha ao idealismo romântico na construção da figura feminina.
IV. Falsa. Embora a obra tenha elementos que apontam para preocupações mais realistas (como crítica social), o excerto não reforça uma representação “racional” e estritamente verossímil do feminino: o narrador investe numa visão estetizada e emocional, com forte carga subjetiva, mais próxima do Romantismo do que de uma caracterização realista objetiva.
Logo, estão corretas apenas II e III.
Alternativa correta: (C).
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